Comecei o tratamento com o psiquiatra. E agora? As 12 dúvidas mais comuns das primeiras semanas
A maior parte das dúvidas que recebo nas primeiras semanas de tratamento tem a mesma resposta: o que você está sentindo é esperado, tem prazo para passar, e existe um sinal claro de quando me avisar antes do retorno. Este artigo é a continuação de Primeira consulta com o psiquiatra: como funciona?: lá eu conto o que acontece na consulta; aqui, o que meus pacientes me perguntam por e-mail e WhatsApp nos dias seguintes.
1. Quanto tempo o remédio demora para fazer efeito?
Mais do que você gostaria, e isso não é sinal de que o tratamento falhou. Com antidepressivos, sono e apetite costumam melhorar em 1 a 2 semanas; o humor e a ansiedade, em 2 a 4; a resposta consistente vem em 6 a 8 semanas, já com a dose ajustada. É por isso que o primeiro retorno é marcado cedo: ele serve para checar a adaptação e ajustar a dose, não para "ver se curou".
2. Estou com enjoo, dor de cabeça, sono ruim, mais ansiedade. É do remédio? Vai passar?
Provavelmente sim, e provavelmente vai passar. Os efeitos de adaptação têm pico na primeira e na segunda semana e cedem em 2 a 3 semanas para a maioria das pessoas. O detalhe cruel é o descompasso: o incômodo chega antes do benefício, e quem desiste na segunda semana abandona o tratamento exatamente na véspera de ele começar a funcionar. Minha orientação padrão: mantenha a dose, observe por alguns dias e me escreva descrevendo o sintoma, desde quando e em que horário aparece. O que faz parar o processo é outra coisa: reação alérgica, agitação intensa ou qualquer sintoma que assuste. Nesses casos, o contato é imediato.
3. Esqueci a dose. Tomo duas?
Nunca. Se lembrou e ainda falta bastante tempo para a próxima, tome a dose esquecida. Se já está perto da próxima, pule e siga o horário normal. Dobrar a dose não recupera o dia perdido e aumenta os efeitos colaterais. Um aviso: medicamentos de meia-vida curta, como a venlafaxina, a desvenlafaxina e a paroxetina, podem dar sintomas desconfortáveis com 1 a 3 dias sem dose. Se os esquecimentos estão virando rotina, me conte: quase sempre existe um horário ou uma formulação que se encaixa melhor na sua vida.
4. Posso beber álcool?
A resposta honesta é: o álcool trabalha contra você. Ele piora o sono e os sintomas de ansiedade e depressão, soma sonolência à do remédio e pode reduzir o efeito do tratamento. Com ansiolíticos da família dos benzodiazepínicos, a mistura é perigosa de verdade e a orientação é não beber. Com antidepressivos, uma dose social ocasional costuma ser tolerada, mas isso é conversa para termos individualmente, com o seu esquema na mesa.
5. Antidepressivo vicia?
Não. Vício tem três marcas: fissura, necessidade de doses cada vez maiores e busca compulsiva. Antidepressivo não produz nenhuma das três. O que existe, e alimenta o mito, é a síndrome de descontinuação: quem para de repente pode sentir tontura, enjoo e irritabilidade por alguns dias. Isso se evita com retirada gradual, planejada comigo. Benzodiazepínicos são outra história: esses sim pedem uso por tempo curto e com plano de saída desde o início.
6. Melhorei. Posso parar?
Ainda não, e essa é a pergunta em que mais insisto. A melhora das primeiras semanas é o remédio funcionando, não o problema resolvido. Em um primeiro episódio de depressão ou ansiedade, a recomendação é manter o tratamento por 6 a 12 meses depois de estar bem, e então retirar de forma gradual, combinada, com plano B se os sintomas voltarem. Parar por conta própria no terceiro mês é a receita mais eficiente que conheço para recair.
7. Posso tomar junto com outro remédio, suplemento ou o injetável para emagrecer?
Essa é uma das perguntas mais frequentes do meu consultório, e a que mais me alegra receber, porque o erro silencioso é não perguntar. A maioria das combinações é tranquila, mas as exceções importam: tramadol, erva-de-são-joão e alguns descongestionantes, por exemplo, interagem com antidepressivos. Análogos de GLP-1, como a semaglutida, retardam o esvaziamento do estômago e merecem conversa. Minha regra prática: antes de começar qualquer coisa nova, inclusive suplemento "natural", me mande uma foto da caixa. Respondo rápido e você começa em paz.
8. Vou engordar? E a vida sexual?
Depende do fármaco, e é exatamente por isso que esses dois temas devem ser conversados, não sofridos em silêncio. Sertralina e fluoxetina costumam ser neutras para o peso; mirtazapina, paroxetina e alguns outros abrem mais o apetite. Alteração de desejo e de desempenho sexual acontece com uma parcela relevante de quem usa antidepressivos das famílias mais comuns; é relacionada à dose, costuma ser reversível e tem alternativas de manejo. Nenhum desses efeitos é preço obrigatório do tratamento: se aparecer, me conte no retorno, ou antes.
9. Como renovo a receita? Preciso de consulta para isso?
Entre consultas, não precisa de consulta nova: precisa de antecedência. A receita de controle especial, aquela branca em duas vias, vale 30 dias a partir da emissão. A notificação amarela cobre no máximo 30 dias de tratamento, e a azul, até 60. No meu consultório, o pedido é feito pela secretária, de preferência com uns 5 dias úteis de folga antes de o medicamento acabar, e a receita digital chega pelo seu WhatsApp. O que não funciona é descobrir na farmácia, no sábado à noite, que a receita venceu.
10. Preciso de atestado ou laudo. O diagnóstico vai aparecer?
Só se você autorizar. O CID, o código do diagnóstico, entra no atestado apenas com a sua autorização expressa; seu empregador não pode exigi-lo, e eu não posso ser obrigado a revelá-lo. Atestado de comparecimento, laudo para INSS, para concurso ou para a faculdade são documentos diferentes, cada um com finalidade e conteúdo próprios. Ao pedir, diga para que o documento serve: isso muda o que escrevo e evita retrabalho.
11. Descobri que estou grávida. Paro o remédio?
Não pare: me avise no mesmo dia. A decisão de manter, trocar ou reduzir a medicação na gravidez é individual, e os dois pratos da balança pesam: depressão e ansiedade sem tratamento também trazem risco para a mãe e para o bebê. Vários antidepressivos têm dados de segurança extensos em gestação e amamentação, a sertralina à frente. O único erro sem remendo é a suspensão abrupta, sozinha, no susto do teste positivo.
12. Piorei antes do retorno. O que eu faço?
Existe um roteiro, e quero que você o conheça antes de precisar dele. Primeiro degrau: efeito de adaptação já esperado e suportável, daqueles que conversamos na consulta, pode aguardar o retorno. Segundo degrau: piora clara do humor, agitação forte, duas noites sem dormir ou pensamentos de morte, me escreva no mesmo dia, sem cerimônia, que a gente antecipa a consulta se for o caso. Terceiro degrau: risco imediato, com intenção de se machucar, não espere resposta de mensagem: CVV 188 (24 horas, gratuito), SAMU 192 ou o pronto-socorro mais próximo. Piora não é fracasso seu nem do tratamento; é informação clínica, e chega a tempo quando você sabe o caminho.
O melhor ainda está por vir!
As primeiras semanas são a parte mais desajeitada do tratamento: efeito colateral chegando antes do benefício, dúvida nova a cada dia. Depois delas, o jogo vira. Meu convite prático: salve o contato do consultório no celular e anote as dúvidas num papel ou no bloco de notas à medida que surgirem. Pergunta anotada é pergunta respondida no retorno, e paciente que pergunta é o que trato melhor.

Dr. Pedro Henrique Meneses
Psiquiatra
- • Médico, Universidade Federal do Espírito Santo, 2011
- • Psiquiatra associado, Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 2012
- • Médico Psiquiatra, Instituto Philippe Pinel do Rio de Janeiro, 2015
- • Psiquiatra da Infância e da Adolescência, CARIM-IPUB, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016
- • Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental, Instituto WP de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2018
- • Emergência Psiquiátrica no Hospital Adauto Botelho (Hospital Estadual de Atenção Clínica)